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Madres paralelas e a tortilla de patatas

Madres paralelas, filme mais recente (2021) do diretor espanhol Almodóvar é um grito. Almodóvar é mestre em manter-nos ali, presos, em suspenso com uma história cheia de reviravoltas e mistérios.  Madres paralelas conta a história de duas mães solo, Janis e Ana, interpretadas por Penélope Cruz e Milena Smit, respectivamente, que se conhecem no dia do parto de suas filhas. Neste espaço, estabelecem um laço.  Tempos depois, o destino as une. Mistério, suspense, um gênero quase teatral com seu jogo de cores, luzes e sombras. Pessoalmente, uma cena me chamou a atenção e se encheu de significado pra mim: nela Janis ensina Ana a fazer uma tortilla de patatas , prato muito típico e comum na vida cotidiana espanhola. A parte mais difícil da tortilla não é cortar as batatas, ou dourá-las, mas sim darle la vuelta,  ou seja, girá-la, pois neste momento, tudo pode ser posto a perder. Inclusive daí veio a frase que se utiliza em uma reviravolta difícil: hay que darle la vuelta a tort...

Graça

          Dádiva esta que vejo nos teus olhos, que são teus, mas tão meus. Vejo graça no que vejo. Estar contigo faz meus dias felizes, por assim dizer, graciosos, contentes. Nossas coisas boas e bobas são tão significativas para mim. Acredito ser isso: você. Faz-me esperançar o futuro. Carregar de significado o que é nosso. Buscar o melhor para nós. Para esse amor cheio de graça. E quero contar-te o que ronda meus pensamentos agora, pois é, definitivamente, na madrugada que minha mente se ilumina, quando tudo é tão silente. Ultimamente, há anos realmente, o silêncio estava na minha mente e, ao mesmo tempo, o barulho era tão grande que é difícil ouvir o que eu mesma tenha a dizer-me.           Entretanto, neste exato momento, enquanto meus dedos tocam o teclado, meus ouvidos soam Anunciação. Sinto cheiro de algo que vem. Minha mente se iluminou, assim como meus olhos ao pensar em um futuro que, ao contrário do que tudo parece, ...

Relógio

Persistência da memória - Salvador Dalí, 1931. Tudo passa. Caio na monótona rotina dos dias. Odeio o som dos ponteiros. Bendito seja o criador do relógio de fluxo contínuo. É incrível como sons intermitentes podem ser extremamente perturbadores. No caso do relógio, sei que ele está ali para me lembrar de como meu tempo diminui a cada segundo, de como tenho gastado meus dias me revirando de um lado para o outro junto com o fluxo dos ponteiros. A preguiça e o tédio são a prisão a que me submeto. O relógio, o carcereiro. Minha cabeça vai tictaqueando. Tento apagar seu som da minha mente, mas no silêncio todos os sons ecoam. Tento digitar mais alto que o som do relógio. Bato com força no teclado, mas ele parece me vencer. Ele sempre vence. O tempo vence todas as coisas. Escolho estar só. E ouvir meus pensamentos. E enquanto isso o tic-tac-tic-tac-não pode parar. Num reforço sádico da minha própria mente, preciso que ele continue para saber que estou viva neste instante e no out...

A palavra

Deus nos fez à sua imagem e semelhança, mas isso provavelmente não significa sermos parecidos fisicamente com Ele, pois imagine se nós, meros mortais, poderíamos nos assemelhar a Deus? Como nós poderíamos abranger tamanha imensidão se Ele está em tudo.? A nós cabe, portanto, pensar a que Deus se referia. Em João 1:1, encontramos "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus." trecho este que se refere a Jesus, filho de Deus, o Verbo que se fez carne. Não é à toa que Eno Teodoro Wanke escreveu: “No princípio era o verbo. Depois veio o sujeito e os outros predicados: os objetos, os adjuntos, os complementos, os agentes, essas coisas. E Deus ficou contente. Era a primeira oração.” Note que através desta brincadeira de sentidos, este autor nos explica a posição superior do verbo. Ele é o centro da oração. Sem o Verbo, não existem nem sequer sujeitos, mas somente substantivos desconexos. Deus, Jesus e Espírito Santo são o centro de tudo. Além d...

Cuspe

Observando da janela do ônibus, vi um menino cuspir da janela do ônibus em que ele estava Cuspiu no chão, no asfalto quente que calefou aquele escarro. Vi sua cara retorcida, seu tédio, sua raiva. Percebi que não era um simples escarro. Era cuspir no prato que não comeu; Era expelir toda essa política podre. Não é à toa que as lixeiras tocam as musiquinhas dos candidatos: estão no lugar certo. O menino escarrou toda essa corrupção, todas as medidas paliativas que nada resolvem, toda essa falta de respeito, de honestidade, toda a falta de saúde, de educação, de planejamento público e familiar. Escarro bem dado. Queria eu saber escarrar tudo isso e que um simples cuspe resolvesse tudo o que há pra ser jogado fora neste país.

FUSÃO

     Sempre senti minha conexão com a água. O contato sempre me deu paz. Se passava o dia na praia, dormia sentindo o som e o balanço das ondas. Sempre amei ficar horas nadando ou ouvindo o som da chuva no vidro.      No meio do caminho, tornei-me seca, esquecendo que eu era água. E era bem dolorido permanecer naquela condição fria, congelada.      Porém veio o calor. E fui derretendo. Mudando de estado.              Hoje me sinto mais liquida que nunca. Sempre me derramando. E nesta Fusão de sentimentos me tornei água: que vem do coração, desce doce pelos olhos e escorre pelos dedos. Torno-me úmida, fluida e a cada dia ganho mais graça.      Se sólida eu era inodora, insípida e incolor, agora sou doce.      Por fim, o principal ingrediente dessa receita é o Amor, a saber, de Deus que transborda em meu coração. E é assim que quero estar. Sempre.

Flor da Poesia

Uma flor, Dirceu Na calçada nasceu Tão simples e bela Tão rica, etérea Chamei-a Poesia.

Cigarillos

                          Fumei novamente o cigarro de quando eu era criança. Em um dia chuvoso, passou por mim uma senhorinha segurando o guarda-chuva com uma mão e na outra o cigarro fedido, daqueles paraguaios vendidos à varejo nos bares. Lembrou-me da tia Rosinha. Senti novamente o cheiro de seu cigarro impregnado no estofado de sua casa, lembrei-me do cachorro velho e tarado, dos milhares de pombos enfileirados em seu muro baixo, dos maços de cigarro espalhados na lateral de sua casa, dos cinzeiros cheios pela casa. Talvez aquele amarelaço nos dentes e aquela pele enrugadinha tenham me desincentivado o fumo. Talvez o cheiro. Talvez tudo. Cheiro de cigarro barato, definitivamente, não me traz boas memórias.

Viaje al pasado

                  "Si un día pudiera yo tener todo mi pasado, y hiciera parar la lluvia en los primeros errores, mi cuerpo y mi miente serían sol."           Es más o menos así la música que no me salió de la miente  cuando vi la máquina del tiempo. El destino me reservó este momento como si todos los otros solamente me guiaran hasta este punto.           Hoy tengo casi 130 años, y eso no estaba en mis planes. No tengo más nadie. Todos mis amigos ya se fueron.  ¡Ah! Y el amor de mi vida, con quien viví 60 años, también partió. No tuvimos hijos. Luego, me siento muy solo. Si puedo, vuelvo ahora a exactamente AQUEL día, en Paris, cuando una moneda habrá caido de mi bolsillo, y no sé cómo fue parar en la fuente de los deseos (que muchos dicen ser la de la inmortalidad). Y fue ahí que todo ocurrió, pues si no fuera esta moneda, ya no estaría más aquí narrándote este hecho. ...

Germinar

        Depois de tanto escrever, parei. Estagnei por um tempo e não sabia escrever além do sofrimento, havia desaprendido a caligrafia da felicidade. Minha escrita foi murchando como uma flor que não é regada. Aliás, foi regada de forma indevida: água salgada demais.        Todavia, quando não se esperava mais nada de uma terra seca, uma semente germinou. Mas eu nada fiz. Não fui eu quem dela cuidou. O milagre desse germinar é de Deus. A semente é o nosso amor. O meu amor que é teu. Todo teu, meu querido. Com seus cuidados de arar a terra pobre do meu coração para que nela entrasse ar e a luz do sol, pude enxergar o que estava já obscuro para mim. Nosso amor ressurgiu, quando já não havia muita esperança...        Hoje posso GRITAR DESESPERADAMENTE a todos que eu-te-amo, hoje sinto o que digo, meu amor. Hoje me redescubro. Hoje volto a ser eu, reencontro-me. Agora sinto tanta coisa que é difícil conter as lágrimas que ...

Esto que escribo

¿Sabéis? En los ultimos tiempos he estado muy dolorida, mi pecho arde, estoy hambrienta de una hambre que nunca sacio. Tiengo miedo. Oigo ruidos que me asustan. No quiero moverme de aqui. Son las dos menos cinco de la mañana. Y ¿qué hago yo? Permanezco en la obsesión de que seas mi lector. Pero no me das una señal siquiera. Hace ocho horas que no como nada a no ser 4 galletas. Quiero dormir, pero no estoy soñolienta. ¿Qué hago yo? Estoy mareada y mis manos no paran de escribir lo que mi mente manda. Nada más pasa por un filtro, solo aparece en esta hoja e ya está. Tengo que irme. Voy a cepillar mis dientes, en cuanto mi estómago devora mi interior. Mi laberinto me hace mareada y mi miente, loca. Me transformo en una de estas letras mal hechas y soy este grito sordo (SHHHHHHHH!) que no se hace conocido. Me quedo aquí inerte para siempre.

Dor em flor

Tocaste meu coração e, diferente do frio metal, este tornou-se em flor. Uma flor despetalada. Mas que se nela ainda cai uma gota do teu regar, dá bons frutos.

Cheiro dO mundo

Guardou a Ars, a epopeia portuguesa e o mundo na sacola, com dor. Quando viu, o mundo estava perfumado dele. Pôs-se a cheirá-lo fortemente para dentro de si. Aquela seria a última vez que, mesmo com dor, faria aquilo. E neste mundo sem olhos, já não se viram mais. Nem o mundo, nem ela. 

Corpo Violão

Tocou seu braço com suavidade Deixou-lhe borboletas na cabeça Perdeu-se naquela linda boca Sentiu seu perfume amadeirado Desenhou-lhe o corpo com seus dedos calejados Arpejou-lhe cada uma das partes Fez em si um belo trate Saltando de casa em casa E quando tocou a fundo, dedilhando cada parte daquela harmonia Fez um bend em suas linhas Os dois estavam no mesmo diapasão Gritou ao ré dó lá do sol fá. E assim compôs a mais bela música, brega, de amor.

Ceguera

A las cuatro de la tarde, el sol se huyó de mí Todo oscureció Me pregunto qué pasa Que los inviernos se están quedando más frios Tal vez sea tu falta Asimismo estás latiendo aquí em mi pecho Eres lo que se pone a calentarme. Vi el sol huirse de mí Mis alas crecieron en la oscuridad Todo me fue develado cuando él volvió Pero lo miré directamente y este me cegó Vivo no más en la oscuridad, pues Mi ceguera ahora es una niebla luminosa Tal vez te vea mejor así, mi amor.

Azul Celeste

    Vi, certa vez, lá embaixo, um homem cujas razões para sonhar se haviam perdido e que aguardava, tão cansado de esperar, a indesejada das gentes.     Seu Celino, numa noite dessas frias e um tanto nebulosas, deitou-se no grande e florido quintal de sua casa. Um jardim tão alegre para um ar tão triste, pensou. Mas deitou. Observava o céu. Após um tempo, o vento fez com que as estrelas, antes escondidas e tímidas, pouco a pouco se mostrassem. Elas, então, começaram a rir-lhe docemente, como diria meu caro Antoine. Mas era um riso tão familiar que o fez enxergar a meiga menina de sua juventude, sua esposa - com a qual vivera por 40 anos - agora era sentida a acariciar-lhe o rosto e a beijar-lhe os lábios frios e murchos. Os olhos daquele amargo homem brilhavam como os de uma criança e deixaram-se derramar em lágrimas. Beijou afoito sua bela mulher, que há tanto tempo não via.    Naquele instante, ao sua última lágrima tocar o chão, sentiu seu corpo...

Tortura-castigo

- Confesso meus crimes. Joga-me na fogueira! Chama-me bruxa! Que posso fazer se desejo tanto? Sou ré em teu julgamento. Reconheço os fins a que recorri, mas não usei de feitiço, fui apenas eu. -"Pai nosso..." -"Pai nossso que estás no céu, santificado seja o vosso nome. Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. E não nos deixei cair, livrai-nos do mal. Amém!" - Não adianta rezar, herege. Ele não ouvirá! - O que resta é que eu suporte tudo por que terei de passar? Calada? Meu último desejo? Não, não me apertes assim o pescoço. Quero liberdade. L-i-b-e-r-d...

Choro baixo

E o sol finalmente conseguiu tocar seu rosto Tão escondido na escuridão. A luz fez um prisma em suas lágrimas E, enfim, sorriu! Mas tão rápido quanto veio, foi-se O que estava fazendo? O nó continuava ali, permanecia chorando sem parar jogada no chão. Acho que estou, como ela, deixando de existir além de você.

Leito

Chora baixinho aqui comigo, minha menina. Transborde Desate esse nó da garganta Derrame-se aqui. Pare de fingir que não dói. Assuma suas escolhas. Jogue Solitaire. Fique aqui. Quietinha, pra ninguém te ouvir. Venha chorar em mim, que sou lugar quente.